26 fevereiro, 2009

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A Ana é surda. Não nasceu assim, mas pequenas acções nossas podem condicionar a vida de outra pessoa para sempre. E foi isso que aconteceu com ela, por negligência médica não tem o dom de ouvir, de saber ouvir, de ouvir como nós. Mas a Ana é dona duma inteligência inexplicável. Ela sabe ler nos olhos e no sorriso, ler nos lábios e nas palavras, e sabe sempre quando estamos a falar dela, expressando aquele sorriso malandro de menina. Sabe tudo o que acontece à sua volta, devora telenovelas e filmes, e sabe toda a vida do que acontece na televisão. Anda numa escola especial, fala por língua gestual, mas não domina todo esse vocabulário. Ainda assim, impressiona porque faz os gestos a uma velocidade estonteante. Balbucia algumas palavras (e eu percebo tudo). Tem 14 anos, eu vi-a nascer, e o meu nome foi das primeiras coisas que aprendeu a dizer. É morena, gira, um cabelo de invejar e super vaidosa. Na escola, é a melhor em tudo, principalmente em Educação Física. Vangloria-se quando ganha as medalhas das corridas. Tem um irmão gémeo, é bonito de se ver a telepatia dos dois. Ele não deixa que nada de mal lhe aconteça, ainda que por vezes perca a paciência com ela. Em criança, a Ana pagava sempre as favas, aproveitavam-se por ela não se poder defender verbalmente. Hoje, é ela que finta tudo e todos e dá a volta a qualquer questão. É benfiquista serrenha e não perde oportunidade de chatear a cabeça a todos os sportinguistas lá de casa. A Ana passa o tempo a rir, de tudo e de todos. E é, sem dúvida, um pouco do exemplo a seguir. Mostra-nos que não é preciso ter tudo na vida para a vivermos da melhor maneira. Mas claro que a Ana tem o sonho de um dia ouvir totalmente, de não ter que por a música aos altos berros para conseguir ouvir alguma coisa, e de não precisar de usar as mãos para falar...

A Ana é minha prima. E eu daria a vida por esta princesa.

*

2 comentários:

  1. A história da Ana tocou-me particularmente, e é por estas e por outras, que às vezes acho que reclamo à toa, e não dou valor ao que realmente importa.
    Feios, gordos, magros, bonitos, com ou sem uma perna, utilizar a voz ou um simples gesto para comunicar, não interessa como o fazemos, o que realmente importa é o que somos e aqueles que nos rodeiam e ajudam a contruir cada pecinha daquilo que somos.
    A Ana é enorme =)e tem pessoas enormes à sua volta. *

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  2. São exactamente 2h25 da manhã. Dei quatrocentas voltas na cama e não consigo dormir. Ligo o computador de novo e ando a navegar por sites e sites, lembrei-me de acabar de ler todos os teus textos, uns esquecidos. Este foi um daqueles que não li à primeira vez que aqui vim. Adorei! Já me tinhas falado dela, mas o que mais gostei foi sentir a ternura que das tuas palavras. As palavras transmiteem-nos sempre algo, para além de toda a força da Ana e da pessoa que ela consegue ser, estas palavras transmitiram-me o que tu sentes =) Texto mais ternurento? *-) Não me lembro de ter lido.

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