25 abril, 2009

«Era a terceira vez...»

«Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.»

Fernanda Braga da Cruz
Gramaticalmente fantástico!

09 abril, 2009

Viagem

A manhã nasce por entre os primeiros raios de sol. O murmúrio matinal, a bica e o laminar rápido no jornal para dar conta das últimas de aqui e de acolá, pouco mais que um semicerrado bom dia e toda esta gente a mentalizar-se que o ofício só acaba quando o sol se for.
Acordar cedo e sentir este cheiro da manhã na capital é coisa para me deixar bem-disposta o resto do dia, para me sentir uma sortuda por viver aqui. Mas deixo Lisboa por umas horas. Rumo à margem sul do rio. Passo a Vasco da Gama, deixo para trás a edificação alfacinha e…outro mundo! Aqui, depois da ponte, tudo é verde e castanho. Lezírias, cavalos, gado, velhos na apanha do mexilhão, uns prédios que se fazem contrastar com tudo isso só para não dizer que aqui tudo soa somente a campo, e eis-me aqui sentada, numa viagem de autocarro que me apraz até, e nunca soube bem porquê.
Faculdade vazia (não estivéssemos nós de férias), um trabalho entregue, outro quase feito, e “toca a bazar daqui!”. Passeio com as amigas e os amigos e as gentes conhecidas que já me vão cansando a vista do mesmo, das mesmas caras. Corrida para não perder o autocarro de volta, e já lá dentro penso que finalmente já falta pouco para bazar mesmo dali.
Lisboa à vista depois de umas horas. O trânsito mais caótico do mundo, o stress que não havia de manhã, as filas intermináveis do desejado regresso a casa e a mim já só me faltam uns poucos minutos para estar deitada na cama a escrever esta porcaria.
Mais tarde ou mais cedo, esta tal viagem acabará. E por mais que eu não goste da cidade do lado de lá onde passo todas as minhas 'santas' semanas, a verdade é que talvez até vá deixar saudades. Quem sabe... Bom mesmo é saber que pelo menos o acordar em Lisboa é garantido, e saberá sempre tão bem quanto hoje.

04 abril, 2009

O que dirias...

Caíu uma lágrima quando vi. Não tenho 102 anos, mas os meus 19 já me permitem dizer que este foi certamente dos anúncios publicitários mais verdadeiros que já vi!

E tu, "O que dirias a alguém que vai nascer num tempo como este?"